SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

À mesa com Ernâni Lopes

Paulo Kuteev-Moreira

A noite acabou mal. Levamos algum tempo a compreender o que queria dizer o professor quando avisou que a noite ia acabar mal antes de responder à última pergunta vinda da audiência que enchia a sala. A pergunta que provocou um final menos feliz à animada noite de reflexão intelectual veio de um licenciado em Economia que perguntou porque é que o professor somente considerava a articulação Europa/África/Brasil uma questão estratégica fundamental e não colocava o Extremo Oriente ao mesmo nível. A reposta foi dura, abalou algumas consciências na sala e incluiu a referência a um jantar que teve lugar em 1985 e em que estiveram reunidos na mesma mesa mais de vinte líderes das maiores empresas nacionais (que na altura não seriam muito mais que duas dezenas). O pedido do professor para que estes homens, que deveriam ser os principais agentes de criação de riqueza do país, avançassem para a China, recebeu um encolher de ombros colectivo e respostas inacreditavelmente medíocres para quem tinha nas mãos e na ponta da esferográfica a capacidade e a obrigação de agir estrategicamente no melhor interesse nacional.

Desde então, passaram 22 anos. Hoje será tarde demais para conseguirmos algumas posições relevantes no Extremo Oriente. Mas não será tarde demais para pensarmos e assumirmos um papel central na articulação de algumas das dimensões económicas que unem o eixo Europa/África/Brasil.

Ao contemplarmos o modelo do “‘hypercluster’ da economia para o mar e o desenvolvimento da economia portuguesa”, em fase de elaboração pelo professor e sua equipa de investigadores, não podemos deixar de compreender que é este tipo de reflexão que teremos que assumir para as políticas de saúde em Portugal em detrimento das análises parciais de sustentabilidade apoiadas exclusivamente na análise do financiamento.

Tal como o mar, também o sistema de saúde nacional é uma questão estratégica pelo enorme potencial de geração de valor e diversos efeitos multiplicadores de criação de riqueza que representa. Porém, os quase 20 anos de SNS têm fomentado essencialmente uma forma de empobrecimento do país que começa a ofuscar os eventuais impactos positivos no estado de saúde da população. Ou seja, tal como no mar pagamos para que empresas de outros países transportem mais de 80% das nossas transacções comerciais, na saúde pagamos a empresas estrangeiras para que realizem as transacções que geram riqueza à volta dos cuidados de saúde. Este desequilíbrio tem que mudar no melhor interesse nacional.

O professor, com o seu genial e clarividente humor, indica a necessidade de atrairmos para Portugal cidadãos “velhos e ricos”. Estes virão viver para o nosso espaço desde que lhes ofereçamos segurança e serviços de saúde. Em termos concretos, um milhão deles espalhados pelo país a gastar o valor das suas reformas teria um enorme impacto na economia nacional. Para tal, os nossos empreendedores no sector da saúde terão que analisar esta oportunidade de forma integrada e promover oferta de natureza multisectorial.

Neste sentido, o ‘policy maker’, ao reflectir sobre a sustentabilidade do sistema de saúde, tem que assumir a visão sistémica preconizada por Ernâni Lopes. O eixo Europa/África/Brasil também deverá ser um conceito estratégico para o desenvolvimento das políticas de saúde em Portugal o que exige uma visão multisectorial onde se articulem as políticas de saúde, urbanismo, ambiente, segurança, transportes e comércio entre outras. Quem está a pensar o ‘cluster’ da saúde nacional? Entre muitas outras, o professor transmitiu uma máxima de que gostei muito. “A estupidez é um direito”. Um direito de que poderemos sempre abdicar, em consciência, quando compreendermos que não somos obrigados a desperdiçar a nossa energia criadora em busca de formas de ganhar dinheiro sem trabalho nem estudo. Será esse o grande equívoco que leva tantos portugueses a viver através de “golpadas” e apostas no euromilhões?

Paulo Kuteev-Moreira, Doutor em Health Management pela University of Manchester e professor na Escola Nacional de Saúde Pública

Diário Económico
11-10-07