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BES: Portugal teria crescido acima da zona euro sem resolução

Sem a resolução ao BES - aplicada há precisamente dois anos -, a economia portuguesa teria crescido pelo menos 2% no último ano, acima dos 1,5% de crescimento do PIB que foi registado e até da média da zona euro e da União Europeia. A conclusão é de um estudo de três investigadores do ISEG - encomendado pelo ex-presidente do BES, Ricardo Salgado - ao qual o DN teve acesso e que incide sobre "o impacto económico da resolução do BES".

O estudo indica que a resolução que o Banco de Portugal (BdP) aplicou ao BES teve um efeito no PIB no segundo semestre de 2014 e em todo o ano de 2015 de uma redução de entre 0,5% e 0,7%. A esta redução do PIB ainda se terá juntado uma quebra do consumo entre os 0,4% e os 0,6%.

O investigador principal do estudo é o economista Avelino Jesus, que explicou ao DN que "de acordo com as projeções do estudo" o país teria crescido pelo menos 2% em 2015 se o BES tivesse continuado a sua atividade sem a resolução. Ou seja: acima da zona euro (1,6%) e da União Europeia (1,9%).

Em termos quantitativos é mais difícil fazer as contas, já que, explica Avelino Jesus, um economista não é um físico. Para o investigador, os economistas "às vezes são muito orgulhosos e querem fazer economia como os cientistas da física e da biologia fazem. Isso é um orgulho disparatado. Nós não temos o rigor e não podemos ambicionar ter esse rigor".

Daí que não haja uma percentagem exata, mas uma margem: quebra do crescimento entre 0,5% e 0,7%. Isso significaria, na margem mínima, uma quebra do PIB de, pelo menos, 897 milhões, mas que pode ter chegado até aos 1255 milhões de euros só em 2015. Se juntarmos a 2015 o segundo semestre de 2014 - já afetado pela resolução e com uma perda máxima a rondar os 607 milhões de euros -, o impacto no PIB foi de 1,862 mil milhões de euros em ano e meio.

O estudo foi feito em duas fases: numa primeira foi preciso avaliar o que seria o BES sem a intervenção estatal e, numa segunda, foi avaliado o efeito da resolução sobre as variáveis macroeconómicas.

Nesta segunda parte do estudo, o método utilizado, explica Avelino Jesus, foi uma "inovadora metodologia estatística", que consiste numa "análise de controlo sintético" que "permite construir uma réplica do banco baseada numa combinação ponderada dos bancos não intervencionados com características semelhantes".

Neste caso, os bancos escolhidos para se chegar ao "banco sintético" por aproximação foram os sete maiores bancos: BCP, BPI, Crédito Agrícola, CGD, Montepio, Santander e o próprio BES. Ora, depois foi, explica Avelino Jesus, "comparado o comportamento deste banco sintético com o banco real [o BES que hoje existe, sobre a forma de Novo Banco], medindo assim os efeitos da intervenção".

Método "sério" e "rigoroso"

Uma outra investigadora do ISEG - que, tal como Zorro Mendes, também participa no estudo -, Isabel Proença, explica que este método é "sério", "rigoroso" e foi inventado por "um professor de Harvard". Pode ser até aplicado em diversas casos que possam levar a um impacto na macroeconomia. Isabel Proença explica que "a metodologia tem uma unidade, que pode ser um país, uma região, um banco e necessita de ter outras unidades que serão próximas daquelas e, depois, o que a metodologia faz é construir uma combinação das outras unidades que esteja o mais próximo possível da unidade inscrita".

Em causa estiveram a análise de 44 variáveis que incluem, por exemplo, o produto bancário, o ativo, os resultados, o número de balcões, o crédito às empresas, os salários pagos, as taxas de juro pagas pelo banco aos clientes ou os impostos.

O rigor científico do estudo já foi atestado e Avelino Jesus garante que, apesar de encomendado por Ricardo Salgado, o estudo goza de toda a liberdade científica.

O investigador do ISEG lembra que o método utilizado neste estudo, "apesar de recente, tem vindo a ser usado já com sucesso em diversas situações da análise económica, da gestão ou da ciência política, em casos tão diversificados como, por exemplo, os impactos da intervenção do governo dos EUA na Chrysler, o efeito da adesão à União Europeia sobre diversos países, o impacto do terrorismo no País Basco, ou, muito recentemente, o efeito da saída do Reino Unido na União Europeia".

Neste caso, a base de dados que permitiu depois aos investigadores trabalhar foi cedida pela Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco (SAER), uma empresa de consultoria.

No fundo, este estudo é a continuação de um já conhecido e também encomendado por Ricardo Salgado. Esse primeiro momento acabou por dar origem a um livro, este também dará. "Em setembro deverá estar finalizado", garante o investigador ao DN.

No primeira fase, o estudo tinha sido coordenado também por Avelino Jesus e pelo presidente da SAER, José Poças Esteves, resultando no livro Caso BES - A Realidade dos Números.

As conclusões mostraram na altura que o supervisor bancário (o Banco de Portugal) e o governo (de Passos Coelho) falharam na condução do processo de intervenção no Grupo Espírito Santo. No futuro vai ser avaliado o impacto de todo o grupo na economia portuguesa.


Rui Pedro Antunes
Diário de Notícias
03.08.2016

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