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Ernâni Lopes no "Diga lá Excelência"

 

Antigo ministro das Finanças defende que haveria vantagens num Bloco Central
Ernâni Lopes: Não faz sentido discutir coligações antes das eleições
 
Ernâni Lopes é presidente da Fundação Luso-Espanhola e responsável máximo da SAER (Empresa Privada de Análise de Risco e Prospectiva). Em entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença, o antigo ministro das Finanças (1983/85) defende a construção do novo aeroporto, mas diz-se contra o TGV. E diz que não faz sentido discutir coligações antes das eleições, mas defende que haveria vantagem num novo governo de Bloco Central. No entanto, como os líderes do PSD e do PS já disseram que não estariam interessados nesse cenário, a sua discussão é uma perda de tempo.

 

As sondagens publicadas já esta semana indicam que depois das eleições não deverá sair um governo de maioria absoluta e colocam-se sobre a mesa alguns cenários de coligação. Foi ministro das Finanças de um governo do Bloco Central liderado por Mário Soares em 1983. Faz hoje sentido pensar num cenário idêntico?

Antes das eleições, discutir cenários de coligação não faz sentido, porque não sabemos qual vai ser o resultado.

Via vantagem numa coligação PS/PSD?

Julgo que poderia haver. Mas estar a discutir neste momento um quadro que nós não sabemos qual é, e acrescento que para esse quadro há declarações públicas dos principais actores a dizerem que não o querem, é um exercício para perder tempo.

Mas há diferenças fundamentais entre o que se passa hoje e o que ocorreu em 1983. E olhando para o superficial da vida política, em 1983, o Bloco Central estava minimamente trabalhado antes das eleições. Quer o PS de Mário Soares, quer o PSD de Mota Pinto estavam alinhados, pois tinham percebido a gravidade da situação e sabiam que juntos talvez pudessem fazer face às circunstâncias, separados não o poderiam.

A única coisa que eu achei estranho é que os dois maiores partidos da vida política portuguesa tivessem arranjado entre si um ministro das Finanças, mas são outras histórias.

Ao irem buscar um independente [Ernâni Lopes], ajudaram a consolidar o Bloco Central, pois as finanças são uma área fundamental em época de crise. Hoje, o PS e o PSD não perceberam que juntos conseguiriam entender-se ou são tão diferentes que não podem fazer nada juntos?

Não sei.

Depois do 25 de Abril, Portugal enfrentou num curto espaço de tempo mudanças profundas. O facto de na altura terem sido chamadas a ocupar lugares de Estado um conjunto de personalidades, algumas independentes, que exerceram as suas funções com sentido de missão, não se dispondo a servir partidos ou pessoas, não ajudou a ultrapassar os problemas?

O que diz é verdade e o problema é que é uma verdade profunda e que não está minimamente resolvida. Há elementos sem os quais uma sociedade não pode funcionar e afirmar-se em termos sadios. O primeiro de todos é o sentido de Estado, o segundo é a responsabilidade de cidadania e o terceiro é o espírito de empresa.

Se não se tem simultaneamente e com algum vigor pode-se fazer o teatro que se quiser, pode-se fazer a publicação em termos das relações públicas do que se quiser, mas temos dois problemas: ninguém acredita e não se resolve um único problema.

As actuais elites dirigentes não têm neste momento espírito de serviço público e são máquinas de propaganda?

Se estivéssemos a falar de matemática, estávamos a falar de coisas simples. Isto é mais complexo. O que acontece é que há uma variação. Não estamos a falar a preto e branco.

Mas a resposta à sua pergunta devidamente qualificada é que sim. As pessoas, leia-se as gerações, não são formadas em termos de sentido de serviço, são formadas em termos de sentido do ganho imediato, seguido da despesa imediata.

O que distingue o actual quadro de crise da vivida por si, em 1983, quando era ministro das Finanças?

As dificuldades que hoje temos não são dificuldades muito definidas num plano conjuntural, com medidas conhecidas para responder, são dificuldades profundamente no interior das estruturas, num quadro muito mais complexo, e são questões onde aparentemente há uma desorganização generalizada para lhes fazer face.

Hoje temos a crise dita global. E há duas diferenças decisivas entre o decurso da década de setenta, o gerador do 25 de Abril, a guerra do Ultramar que é um quadro fundamental, pois deu origem a um tremendo potencial de mudança mais ou menos revolucionária que se foi gerando.
Hoje, não há nada disso. Passa de uma situação em que há progressivamente, e por motivos políticos, até 1974 um crescente bloqueio, e em que o país, a sua vida, está bloqueado. E o papel do 25 de Abril em termos históricos foi o de destruir esses bloqueios. E depois começar a fazer outra evolução.

Uma segunda diferença é que Portugal hoje é membro da União Europeia, que é uma cinta de segurança recíproca.

Manuela Ferreira Leite tem razão quando diz que o nosso principal problema é "o excesso de endividamento"?

Tem. O endividamento em si é um conceito abstracto que tem uma tradução ultraconcreta - é que se não houver dinheiro para pagar, o país não obtém crédito, não funciona e não financia a economia. Mas o problema maior é o efeito do problema, o endividamento externo, que é o défice das contas com o exterior na banda de 10 por cento do PIB ao ano e ao longo de muitos anos.

O défice de 2008 já foi medido, sabe-se quanto é, e o valor já foi simultaneamente não produzido e gasto. O défice quer dizer: produziu 10 e gastou onze.

Esse problema justifica o adiamento dos investimentos públicos?

Depende do que significa adiar. Significa que não pode fazer muitas asneiras. Esse é que é o verdadeiro significado. Em termos muitos simples, quem está nessas condições não pode, nem deve ficar parado, mas não pode fazer asneiras. É um nonsense total dizer para parar investimentos públicos.

Agora pode, deve e é útil haver uma escolha correcta dos investimentos, saber seleccionar e ter em atenção o ganho a longo prazo e o custo também a longo prazo. A verdade é que é impossível ficar indefinidamente endividado. É preciso saber gerir a dívida.

 
Cristina Ferreira, Graça Franco
Público 
19.Set.2009

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