SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

Crise aproxima-se do momento de clarificação

A Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco (SaeR), dirigida pelo economista e ex-ministro das Finanças Ernâni Lopes, prevê que a crise portuguesa se aproxima do momento de clarificação, em artigo publicado na edição de Setembro do seu Relatório.
 
No texto, não assinado como é norma desta publicação trimestral, especifica-se que esta clarificação decorrerá de "não ser possível prolongar por muito mais tempo a acumulação de dificuldades insistindo nas rotinas do passado" nem, por outro lado, "passar para novas orientações estratégicas sem superar as resistências dos interesses que se instalaram em função dessas rotinas".

A previsão da aproximação do momento clarificador baseia-se na acumulação de vários "incidentes", atribuídos à recusa pelos agentes sociais de reconhecerem a intensidade da crise ou à apresentação de medidas de correcção com dramatismo.

Enquanto aquela recusa leva à consideração de que os desequilíbrios serão naturalmente absorvidos com a passagem do tempo, o que desmotiva a mobilização para a mudança, este dramatismo desencadeia atitudes de resistência por parte dos interesses que se sentem ameaçados pela alteração das rotinas.

Os analistas da empresa de Ernâni Lopes entendem que a persistência das dificuldades da sociedade portuguesa para recuperar trajectórias de viabilidade (em termos de défice orçamental e défice comercial) e rotas de crescimento e de modernização económica (em termos de evolução anual do produto e em termos de atractividade do IDE) deriva mais de uma crise de política, do que de poder.

Contrapõem assim que há grandes concentrações do eleitorado em torno dos dois maiores partidos desde 1987, em que se sucedem as maiorias absolutas, sem que a trajectória descendente dos indicadores económicos, de competitividade e de atractividade seja interrompida.

A SaeR considera mesmo que "esta trajectória descendente já chegou aos limiares da descontinuidade".

Significa com isto que "tanto o défice orçamental como o comercial se tornaram crónicos e são alimentados automaticamente por efeito dos dispositivos instalados em termos de despesa pública, e de perda de competitividade dos produtos obtidos nas empresas portuguesas".

Com este diagnóstico, a SaeR recorda a maldição chinesa que consiste em desejar a alguém que acaba de nascer que viva tempos interessantes - "maldição porque não se sabe o que vai ser o futuro, mas já se sabe que não irá ser a repetição do passado", adianta.

No texto entende-se também que as sociedades que estão condenadas a viver tempos interessantes recorrem a dispositivos de recurso para tentarem reduzir esta incerteza.

Para isso recorrem seja às "ideologias do transcendente", seja à "demagogia populista".

Com as primeiras, relativa ao materialismo histórico, fundamentalismo religioso ou destino metafísico da raça, invocam forças que estão além da sociedade e que determinariam o seu rumo.

Da segunda diz ser "outra fórmula conhecida para reduzir a ansiedade da incerteza colectiva, quando a direcção política se afirma pelo reconhecimento das vítimas da crise através da identificação de um inimigo, interno ou externo, que é o factor da crise: vencido o inimigo, a normalidade voltaria".

Estes dois recursos tradicionais, sintetiza a SaeR, têm em comum o desejo de voltar aos tempos normais sem ter de mudar nada de essencial do que se conhece no passado.

Resta um terceiro recurso, o da observação dos factos, considerado "o único que permite compreender o que se tornou inviável na ordem do passado e o que tem de se fazer no presente para que se possa voltar a um futuro com viabilidade".

DE com Lusa
21-10-2005