SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

'Países desenvolvidos só sobrevivem se responderem à nova economia da dívida' diz Ernâni Lopes

«A economia da dívida em que a União Europeia, Japão e os Estados Unidos vivem, assim como Portugal, gerou uma ‘armadilha de sufoco’ em que estes países se colocaram, a partir de 2007 e 2008 com o eclodir da crise, que vai ter implicações profundas na estruturação do poder e na criação de riqueza à escala global», disse Ernâni Lopes, antigo ministro das Finanças e responsável da Saer - Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco.

Ernâni Lopes, que falava na apresentação do relatório trimestral da Saer, referente a Junho, destacou que a resposta política aos desafios colocados pela economia da dívida não pode ser feita em termos «meramente repetitivos», através do uso dos instrumentos tradicionais da segunda metade do século XX”.

O especialista referiu também que vai ter consequências no modelo social europeu, acabará por forçar à adoção de regimes de regulação «mais duros» para as actividades financeiras, e exigirá que a União Europeia «assuma um papel de 'interlocutor credível'» no quadro económico-financeiro global.

«Esta é a questão nuclear ao longo dos próximos anos», e a forma como a crise global está a ser enfrentada «não terá solução», salientou.

O economista lamentou igualmente o fato de os responsáveis políticos dizerem constantemente que «o país vive acima das suas possibilidades» e, simultaneamente, não tomarem «medidas exigentes» para reduzir o excesso de despesa.

«Há uma via que não perfilho que é a do aumento forte dos impostos e outra que defendo. Numa situação de verdadeira emergência, como é a de Portugal, é preciso reduzir os rendimentos», mas a redução salarial para os membros do Governo e os parlamentares, apesar de «não ter expressão macroeconómica», deveria ser superior.

Questionado sobre o país poderá entrar em recessão em 2011, admitiu que sim, sem no entanto o afirmar categoricamente: «Parece-me que sim, mas não estou seguro», sublinhou.

Mas mais importante do abordar esta questão é saber se a economia apresenta sinais de estabilização: «Eu não os vejo» e gostaria saber também se «é capaz, ou não», de desencadear um processo de criação de riqueza.

Segundo Ernâni Lopes, um sistema económico num quadro de crescimento «praticamente descontrolado», ou sem ter capacidade para refrear a sua dívida, «não é sustentável nos próximos 25 anos».

«Não é só Portugal, mas também outros países. Ora o custo da desregulamentação da economia é tremendo, pois implica uma perda de posição da União Europeia no mundo e pode levar a uma explosão descontrolada da inflação», disse.

Segundo o responsável, «os equilíbrios dos regimes políticos estáveis na Europa convivem mal com o desemprego, inflação e a dívida», alertando para uma futura quebra do nível de vida, aumento do desemprego e a necessidade de se apoiar a economia social.

Agência Lusa/Sol

14.Jul.2010