Turismo competitivo
Os resultados de 2006 foram positivos para o Turismo português e o novo ano apresenta-se com boas perspectivas. Há, assim, razões para algum optimismo, mas seria um erro pensar que estamos perante uma mudança consolidada.Para além dos números, importa saber se o Turismo português está no bom caminho, se assimilou as profundas transformações estruturais em curso nos mercados internacionais e se está preparado para novos embates. Importa saber se, de facto, existe uma visão de médio/longo prazo que garanta a competitividade. Trata-se de questões não negligenciáveis, sobretudo tendo em conta que saímos de vários anos de resultados e actuações políticas negativas e que estamos a viver, agora, um súbito “entusiasmo” pelo investimento no “turismo”. Justificam-se, assim, na opinião do viajante, algumas reflexões.
Não há, de facto, dia que passe que não surjam anúncios de novos investimentos sobretudo provenientes de sectores externos ao Turismo e tendo quase sempre associados uma forte componente imobiliária. Porquê esta “euforia”? Porque muitos consideram o “turismo” um negócio “fácil e de retorno garantido”... Aliás não deixa de ser curioso que um responsável de uma consultora internacional tenha afirmado (D. Econ.27.12) que “o turismo residencial é o futuro do imobiliário”.
É sem dúvida importante o interesse pelo investimento no Turismo, mas é evidente que ele tem também causas e motivações “externas” ao sector e deve, por isso, merecer atenção adequada. Para que não haja dúvidas o viajante faz a sua “declaração de interesses”: sim, o Turismo necessita de investimento; sim, há muito por onde investir no Turismo; sim, a imobiliária interessa ao Turismo, e os ‘resorts’ de qualidade também. Já agora também uma opinião: o interesse da “imobiliária” pelo Turismo, legítimo sem dúvida, pode não coincidir sempre com o interesse do Turismo. Não é um problema. Tem, apenas, de haver transparência de objectivos. A questão de fundo é que importa reflectir sobre o Turismo no seu conjunto e não apenas ir na corrente de interesses do momento. Viveu-se um vazio estratégico durante anos, deixou-se de discutir e há quem queira impor o “pensamento único” sobre o que é importante para o Turismo, fugindo ao confronto de ideias. Até o “Reiventando o Turismo” do professor Ernâni Lopes, ontem aplaudido, foi discretamente arrumado na prateleira.
Portugal, tem todas as condições para ganhar a batalha do Turismo. Só a perde se cair no oportunismo deslumbrado do que “está a dar” em cada momento...desprezando o conjunto variado de sectores, produtos, regiões.
O Turismo é, de facto, uma actividade económica diferente das outras, onde são os consumidores que se deslocam para ir ao encontro do produto. É uma das poucas actividades que não pode ser deslocalizada, como uma qualquer “Ford da Azambuja”. É uma das poucas actividades de exportação em que Portugal não só já é bastante competitivo, como tem condições para continuar a sê-lo, porque isso depende sobretudo de nós: porque o produto é nosso e está aqui. A questão é como fazê-lo.
As premissas são simples: 1) Ter consciência da nossa real dimensão territorial/turística e de que, no mercado turístico, os países não são todos iguais; 2) Conciliar uma visão nacional do Turismo com uma abordagem regional e multisectorial; 3) Apostar nos recursos/produtos prioritários em que podemos ser bons/melhores, e agregar a estes os outros produtos; 4) Não ter a pretensão de ser competitivo apenas pelo preço, mas sim pela qualidade, associada à diversidade e à diferença de uma oferta que nos distinga. São as bases para um Turismo competitivo.
As medidas estratégicas são ainda mais simples: 1) Definir mercados e segmentos alvo prioritários, tendo em conta a nossa oferta, desde logo entre os 400 milhões de turistas da Europa; 2) Turismo interno, sempre; 3) Construir os meios/canais para informar/promover junto dos potenciais clientes.
Sabemos fazer tudo isto muito bem, mas não o fazemos de forma coerente. Para termos um Turismo competitivo é necessário visão e estratégia, vontade política e liderança forte.
Vítor Neto, Empresário, presidente do NERA e vice-presidente da AIP
Diário Económico
2007-01-09
Notícias
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