SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

Ernâni Lopes - "É lucidez cuidar dos deixados de lado"

Tem sublinhado a importância de um sector social, que até agora tem sido encarado com residual pela sociedade. Por que é tão importante esse terceiro sector?
A questão radica no facto de que neste primeiro quartel do século XXI estarem a ocorrer alterações económicas e sociais profundas na sociedade europeia.

Que alterações são essas?
A mudança está no duplo envelhecimento. Para além de nascerem menos crianças, a esperança de vida subiu dramaticamente e sabemos que continua a subir.

Quais serão as consequências desse duplo envelhecimento?
Essas camadas de mais idade vão ter exigências numa escala muito maior do que era habitual nos últimos trinta anos. Esses mais velhos vão ter duas questões básicas. A solidão e a exclusão, ou seja, aqueles que não têm rendimentos e precisam de ajuda para viver.

Diante desse cenário, qual é o papel do sector social?
Já sabemos que as economias não vão crescer muito. Por isso há uma dimensão do sistema económico e social que vai ter uma grande expansão nos próximos 20 ou 25 anos, que é a economia social.

Pode explicar o que é economia social?
Trata-se daquela parte do funcionamento das economias e sociedades, em que não falamos de produção de bens e serviços, nem de actividades do Estado. Estamos a falar de um terceiro sector que não funciona com fins lucrativos, mas que tem a função decisiva de equilibrar o sistema. Cuidar dos excluídos é essencial para se evitar um quadro social ingerível e explosivo.

Os privados poderão entrar nesse mercado?
Vão entrar, mas para as pessoas que têm recursos. O problema principal prende-se com os excluídos. Para esses é mais lógico e mais barato para o Estado não criar novos mecanismos com a sua estrutura já pesada. Para reequilibrar o sistema é necessário encontrar de uma maneira economicamente suportável, o que é responsabilidade de toda a sociedade.

Santas Casas têm de reinventar o seu papel

Em diversas declarações, tem afirmado que as Santas Casas constituem “um trunfo único”, que pelas suas características seculares poderão ser actores principais da economia social. Por quê?
A atitude típica das Santas Casas de servir é uma componente nobre, espiritual e elaborada. Por isso elas constituem-se num activo inatingível para a economia social. Com uma herança de 500 anos, o seu aspecto mais interessante é conciliar essa dimensão de interesse imediato e directo, consequência da nova realidade social, com a sua dimensão moral secular.

Mas é preciso modernizá-las.
Para corresponder às exigências da mudança, elas têm de reinventar o seu papel, preservando as bases clássicas de bem-fazer.

Que mudanças são essas?
Maior racionalidade na definição dos serviços e na obtenção de recursos. Inevitavelmente, as Misericórdias vão manter as funções que já têm, mas o volume de pessoas apoiadas será muito maior.

O que deverá ser feito para modernizar sem descaracterizar essa herança secular?
Aperfeiçoar a gestão do património e das receitas. É apenas gerir bem. A relação com o Estado também tem de mudar. Todos sabemos que essa relação tem tido seus altos e baixos ao longo da história.

Como reinventar a relação com o Estado?
Não pode haver negociação com base no improviso da necessidade financeira do ano corrente. Tem de haver uma visão estratégica do que as Misericórdias fazem. E o Estado tem de ter a noção de que é do interesse nacional encontrar uma fórmula sólida de financiamento de algo que não é capaz de fazer.

O que o Estado não é capaz de fazer?
Assegurar equilíbrio social nas melhores condições possíveis. Por isso insistimos muito na recolocação do problema do financiamento, que só faz sentido com uma reflexão séria das duas partes. Por sorte, o Estado tem as Misericórdias como activo intangível, com prestígio enorme vocação espiritual.

Essa relação poderá criar uma economia social “subsídio-dependente”?
Não, completamente. Isso é o que muita gente pensa, mas é um erro de avaliação. Não se trata de subsídio tipo esmola. O que está em jogo é a criação de um sistema de economia social, um serviço que o conjunto das Misericórdias já presta à sociedade e através do qual o Estado gasta menos e serve melhor. Melhorar a relação com as dificuldades

Em que consiste a modernização?
Misericórdias organizadas por zonas, numa estrutura voluntariamente apresentada, para não colocar em causa a autonomia de cada uma, poderão apresentar projectos mais concretos.

Em declarações à imprensa, falou do distrito de Aveiro como uma experiência-piloto.
Não é possível tratar 400 entidades ao mesmo tempo, sobretudo quando se trata de entidades autónomas, heterogéneas e dispersas. Aveiro tem 21 Santas Casas e é uma das zonas mais desenvolvidas e dinâmicas do País. Posso dizer que é uma hipótese possível de trabalho.

Que resultados teria uma experiência desse tipo?
Não tenho dúvidas que a experiência poderá servir o País todo. Mas antes tem é de haver uma base sólida de implementação.

As Santas Casas não são ricas, de que montantes estamos a falar?
Estou certo de que, caso haja interesse, haverá fontes diversas de financiamento, que poderão inclusive vir do próprio Estado.

Posicionamento estratégico e reinvenção da relação do Estado poderão resolver os problemas financeiros das Santas Casas?
É provável que continue a haver problemas financeiros. O que se pode melhorar é a relação com as dificuldades.

Mostrar a grandeza das Misericórdias

Durante a apresentação em Espinho, falou sobre a necessidade de anúncio. Seria então uma campanha de marketing?
Não se trata de marketing político ou comercial. É genuinamente informar, formar e mostrar a grandeza das Misericórdias, para que a sociedade não só reconheça, mas se identifique com essas instituições. Dizer estamos aqui, vivemos para isso por razões de solidariedade, com uma base fortíssima de empenhamento religioso.

Que vantagens teria esse reconhecimento?
Se a sociedade não se reconhece, não contribui através de doações, e sem isso, as Misericórdias não seriam o que são. Novos dirigentes também poderão descobrir a vocação através desses anúncios.

Acha simples encontrar essa vocação na sociedade de hoje?
O drama maior seria as Santas Casas serem objecto de uma espécie de take over de rapazes desembaraçados. A sociedade está obcecada com a ideia de sucesso, seja a que custo for. Grande parte da população vai ser vítima dessa realidade de competição e sucesso.

Voz das Misericórdias
2006-10-03

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