SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

Vamos lá deixar de brincar com o fogo

Já é tempo de deixar de brincar com coisas sérias e de nos culparmos uns aos outros, quando todos temos culpas. Classe política e grandes empresários são responsáveis por mais de uma década em que Portugal não ficou mais rico e está mais injusto. É preciso ouvir com seriedade os conselhos e os alertas do Presidente da República.

A intervenção do Presidente da República na comemoração dos 36 anos do 25 de Abril de 1974 tem o grande mérito de nos dizer que temos recursos para enriquecer e de nos alertar para seriedade do problema dos salários e bónus dos gestores, com especial relevo em negócios onde se ganha aquilo que o Estado deixa que se ganhe.


Comecemos pelas prioridades que o Presidente traçou para a economia portuguesa.

A ausência de perspectivas de crescimento da economia portuguesa é a principal razão da desconfiança dos investidores em relação ao país. Endividados, sem poupança e sem que se veja por onde pode a economia crescer fazem uma mistura fatal, que está a levar à venda dos títulos de dívida pública portuguesa. Com este movimento sobem as taxas de juro de longo prazo da dívida pública portuguesa - estão hoje mais distantes das taxas alemãs do que em 1997 - e aumenta a desconfiança em relação à banca portuguesa, como se pode ler hoje na edição em papel do Negócios.


Uma das perguntas mais frequente das agências de avaliação de risco quando visitam Portugal é: "Por onde vai a economia portuguesa crescer?" É a resposta a esta pergunta que fará com que quem nos financia nos continue a emprestar dinheiro, confiando que seremos capazes de pagar, porque vamos ter mais rendimento.

O Presidente respondeu a essa questão determinante. Podemos crescer explorando um dos recursos que mais desperdiçámos nas últimas décadas, o mar. Com a perspectiva de expansão da Zona Económica Exclusiva são ainda maiores as potencialidades de um crescimento apoiado nos recursos do mar.


A outra ideia do Presidente de apostar nas indústrias criativas, além do valor que tem em si, potencia ainda mais o turismo.


O problema é como fazer. Ernâni Lopes é um dos economistas que mais estudou o mar como factor de crescimento da economia portuguesa. Ouvir o que tem a dizer sobre o tema podia ser uma maneira de começar a trabalhar.


Para concretizar uma política nova é preciso que o primeiro-ministro se torne menos fechado sobre si próprio e abandone a atitude de permanente agressividade e ataque a todos quantos dele discordem e não mimetizem o que faz ou o que diz. Embora se possa compreender que governar é uma tarefa extremamente difícil e que José Sócrates foi especialmente sujeito a processos, supostamente judiciais, que nunca deram em nada, o país precisa de um primeiro-ministro que conte com as ideias de todos, que analise os caminhos propostos e que tenha a coragem de seguir novas políticas, mesmo que isso signifique deixar cair opções que considerou melhores.


O outro grande tema do Presidente foi, pela segunda vez no seu mandato, os salários dos gestores. Há "casos de riqueza imerecida que nos chocam", disse o Presidente. "A injustiça social gera sentimento de revolta", avisa o Presidente.
Os líderes políticos e os grandes empresários têm a oportunidade de demonstrar que são mais do que exploradores de vantagens e de posições dominantes. A primeira década do século XXI mostrou que nem fomos eficientes nem promovemos a igualdade. É tempo de deixar de brincar. É tempo de quem tem responsabilidades de liderança, na política e nos negócios, mostrar também que tem valores.

Andamos brincar com o fogo.

 
Helena Garrido
Jornal de Negócios
26.Abr.2010