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A receita de Ernâni

Os 25 anos da adesão de Portugal e Espanha à velha CEE foram assinalados com pompa num momento em que os dois países e a Europa estão mergulhados numa crise profunda. E os líderes políticos de 1985, começando por Mário Soares, aproveitaram para denunciar a falta de estratégia e de liderança na Europa, arrastando na crítica, por via indirecta, as lideranças dos dois países.

Pode parecer que, ao desmerecerem os líderes de hoje, os de ontem estejam a pôr-se em bicos de pés mais do que devem. Não estão. No confronto com a geração actual, as diferenças são abissais. E não falamos apenas dos líderes. Falamos das verdadeiras "elites" - não das que foram aqui referidas na última edição por causa das suas reformas douradas - e das figuras que puseram o seu saber, a sua coragem e honestidade políticas, bem como o seu espírito de serviço público, cada vez mais em desuso, ao dispor do país e dos tais líderes, ajudando-os a brilhar. Figuras como Ernâni Lopes, ministro das Finanças e do Plano entre 1983 e 1985, o período mais crítico que a democracia portuguesa enfrentou do ponto de vista económico e financeiro até 2008, e que antes, como embaixador em Bona e Bruxelas, deu um contributo decisivo para o êxito das negociações de adesão à Europa.

Ernâni Lopes esteve, na semana passada, no programa da SIC-Notícias "Plano Inclinado", de Mário Crespo, para uma lição de economia, política e cidadania que devia ser retransmitida no horário nobre de todas as televisões generalistas. É economista de formação, mas a sua receita para esta crise - e para todas as crises futuras - dispensa números, gráficos, percentagens, gritaria e insultos gratuitos. Toma por adquirido que os valores, as atitudes e os padrões de comportamento são a base essencial de toda a actividade económica. E apresenta uma cábula segura para o êxito, que aqui se reproduz: onde existe "facilitismo", deve haver "exigência"; onde está "vulgaridade", pôr "excelência"; onde está "moleza", pôr "dureza"; onde está "golpada", pôr "seriedade"; onde está "videirismo", pôr "honra", onde está "ignorância", pôr "conhecimento"; onde está "mandriice", pôr "trabalho", onde está "aldrabice", pôr "honestidade".

Para vencer todas as crises, basta seguir este guia de substituição. Em casa, na escola, na empresa, no ministério, no Parlamento, até nos partidos políticos, se os valores em causa lhes parecerem compatíveis. Pena que, podendo os portugueses votar, os nomes dos Ernâni Lopes que ainda existem não apareçam nas listas de candidatos.

Fernando Madrinha

Expresso

25.Jun.2010

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