SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

«Portugal arrisca-se a cair na armadilha do imediato»

Se Portugal apenas se focar numa lógica de curto prazo, «que é o que parece que está a acontecer», pode «cair na armadilha do imediato». Uma «armadilha terrível», avisa o responsável da Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco (SAER). Como não cair nela? Há vários caminhos e o país terá de renegociar o acordo com a troika.

Até «estamos no bom caminho da austeridade, mas não no bom caminho de crescimento», alertou José Poças Esteves, na apresentação do relatório trimestral da Saer.

«Estamos perante um reajustamento tectónico de relações económicas e também político. O terramoto aconteceu, mas há ainda réplicas. Engana-se quem pensa que resolvendo os problemas do país fica com tudo resolvido. Enquanto não for resolvido o problema da Europa e o problema do ajustamento global» isso não acontecerá. A Europa é, de resto, o tema de fundo do relatório trimestral da Saer. Poças Esteves explica porquê: «Vai influenciar o futuro de médio e longo prazo da sociedade portuguesa».

«Quando se diz que temos o ajustamento quase feito» é preciso lembrar que «estamos numa placa tectónica em desequilíbrio». Não dependemos só de nós.

O nosso trabalho de casa está, de qualquer modo, por acabar. «Ou a economia portuguesa, depois de resolver problemas mais intrínsecos de competitividade (precisa de fazer reformas que ainda não foram feitas», identifica setores de grande atratividade internacional e de grande crescimento» ou fica em maus lençóis. A SAER também está preocupada com o estrangulamento do sistema financeiro.

Aposta no crescimento: os setores a agarrar

A receita da SAER para a economia portuguesa tem como ingredientes o turismo, a economia do mar (portos, logística, transporte marítimo). Sines é um bom exemplo, já que cresce 20% ao ano. «Mas falta ferrovia. E andámos nós a pensar em TGV». Investir no turismo náutico e na pesca («Portugal importa 2/3 do que consome o que é uma irracionalidade»), também é crítico. Por que não apostar em «quintas marítima»? Poças Esteves sugere-o, bem como a aposta no setor da energia.

Tudo isto apostando também «na Lusofonia para que Portugal tenha um papel económico, mas também político em termos internacionais». O sistema financeiro também precisa de deixar de estar «estrangulado».

País precisa de crescer a taxas mais de 4% ao ano

Para Poças Esteves, «o Governo não está a fazer nada de mal, mas o que está a fazer está incompleto». O país «precisa de crescer a taxas de 4% e 5% ao ano se quiser pagar a dívida e os juros elevados». E essa ambição de crescimento «parece ser quase impossível». Portugal «tem de agir rapidamente se quiser gerar riqueza. Começamos a ter níveis de austeridade e de pobreza absolutamente insustentáveis».

Questionado pela Agência Financeira sobre quanto tempo tem o país para entrar numa rota de crescimento que lhe permita não ter de voltar a pedir ajuda, Poças Esteves começa por dizer que «não é credível que consigamos resolver os problemas nos períodos que estão negociados atualmente com a troika. Os prazos vão ultrapassar 2013». Será preciso renegociar, mas «se mudarmos para a via do crescimento, em dois ou três anos estaremos a pôr esta lógica em prática». Precisamos disso, segundo o responsável da Saer. Nós, e a Europa.

«O risco de uma deriva à grega, económica, social e financeira, não deve ser descartado» em Portugal, lê-se no relatório. E podemos ter «de continuar ligados à máquina de oxigénio», leia-se ajuda externa, «por muito tempo».
 
 
Vanessa Cruz
Agência Financeira
24.Abril.2012