SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

Estudo encomendado por Salgado diz que "GES era viável em 10 anos"

É um estudo encomendado por Ricardo Salgado que pretende medir o impacto da crise financeira de 2008, na economia e no sistema financeiro português.

Os autores apontam "falhas determinantes" no comportamento dos atores, gestores do grupo e decisores políticos e concluem que "o colapso e desmembramento de um conglomerado como o GES merecia uma diferente abordagem".

Ao nível interno, conclui-se que foi "insuficiente" a vigilância da gestão do grupo e que o "desequilíbrio" levou o setor não financeiro a "parasitar" o financeiro.
O livro sublinha que uma das diferenças "mais marcantes" entre o ramo financeiro e não financeiro do GES tinha a ver com a estrutura e organização internas.

De um lado, os autores do estudo colocam as contas "auditadas" e a "organização" dos negócios do BES para sublinhar "uma gestão de referência e de boas práticas".
Já no ramo não financeiro, é denunciada a falta de contas "consolidadas e auditadas" e a estrutura "deficiente" dos negócios. São debilidades que - escreve-se no livro- "tinham sido detetadas", mas não chegaram a ser corrigidas.

O estudo é particularmente crítico da atuação do Banco de Portugal e do governo considerando que ambos "não levaram em consideração o que estava em causa"; e defende que teria sido fundamental " a mobilização de todos os recursos para preservar qualquer centro de decisão em risco " como era o GES.

A tese defendida é que BES e GES aos olhos dos investidores eram "indissociáveis" e que o campo de ação do Grupo Espírito Santo ficou limitado com o ring-fencing- a barreira de proteção através da qual o BdP quis impedir o contágio dentro do grupo.

Citam-se como exemplos: a exigência de reembolso do papel comercial de curto prazo, "sem possibilidade de renegociação" e a não permissão para venda de ativos "em tempo e condições adequadas".

Foram essas "limitações de tempo e de substância" , assim como o facto de "não estar disponível" financiamento de médio e longo prazo, que , na leitura do estudo, acabaram por "comprometer a viabilidade do GES e por consequência do BES".

Considerando que a Resolução "não era a única alternativa" para estabilizar sistema financeiro e garantir a sustentabilidade económica e financeira das operações, o livro "Caso BES" defende que o pedido [feito por Ricardo Salgado e rejeitado pelo governo] de um financiamento intercalar a área não financeira, "teria permitido estancar, a tempo e em grande medida (se não definitivamente) os efeitos negativos" da situação do GES, na altura.

Os autores defendem que "não seria possível criar condições de estabilidade e sustentabilidade para salvar o BES, sem encontrar uma solução de estabilidade e sustentabilidade para o GES".

Para defender um apoio público ao Grupo Espírito Santo, são citados exemplos, como a Peugeot, em França [que foi invocado junto do governo português]; a General Motors, nos Estados Unidos ou o Lloyds Bank, no Reino Unido.

Considera-se que uma intervenção através de fundos europeus afetos à recapitalização do sistema bancário, num grupo "estruturante", como o GES, teria dado condições "mínimas" necessárias para a continuidade das operações" , com "menor pressão" dos compromissos da dívida de curto prazo e "sem pressão" para alienar ativos a preços "desvantajosos."
O estudo, encomendado por Ricardo Salgado, sustenta que se tivesse sido seguida essa via teria sido possível manter o "último conglomerado misto português".

Numa altura em que, na sequência do colapso do GES, tanto o governador do Banco de Portugal, como os deputados, defendem limites aos conglomerados- apontando a complexidade e a falta de transparência como motivos para restringir os grandes grupos de empresas com negócios na banca e na área não financeira, os autores do livro sublinham as "vantagens" para economia portuguesa dos "conglomerados mistos nacionais".
Poças Esteves e Avelino de Jesus consideram que "economia portuguesa precisa de centros estruturantes". E que se a integração bancaria não for feita "pela via dos conglomerados mistos nacionais", tenderá a a ser feita pela integração em conglomerados financeiros ou mistos "estrangeiros", como as citadas espanhola La Caixa ou a chinesa Fosun.

Os autores traçam a cronologia do grupo, desde o século XIX, para através de quadros, mapas e gráficos concluirem que a marca Espírito Santo era um "ativo de referência" e o GES - era o "último dos centros de racionalidade da economia portuguesa", com poder de decisão nacional; e que "ainda está por apurar" o impacto da decisão do BdP na estabilidade do sistema financeiro nacional e na economia portuguesa.

Em entrevista recente, os coordenadores diziam não saber se Ricardo Salgado pretende usar o estudo em sua defesa, mas vários dos argumentos, deste livro, reforçam a tese que o antigo homem forte do BES levou ao Parlamento, para defender que o banco não tinha que desaparecer.

Judite Menezes e Sousa
TSF
22.Junho.2015