Países e cidades
Urge, em Portugal, que os autarcas das maiores cidades comecem a trabalhar conjunta e empenhadamente para se tornarem “Cidades Mundiais”.Ao desaparecerem as barreiras geográficas ao investimento, a concorrência deixou de se fazer apenas entre empresas. Ela passou a ser feita também entre países e entre cidades. São dimensões novas para os políticos pois que países ou cidades com governos ineficientes não só não atrairão investimentos como perderão os que têm, de nada valendo a nacionalidade dos investidores. De facto, mesmo os investidores nacionais, por muito que queiram ficar na sua terra, não podem comprometer a sua capacidade de vencerem no confronto competitivo. Para o conseguirem têm que localizar as suas empresas em países e cidades competitivas. Neste domínio, Portugal tem muito com que se preocupar pois, aqui, o Estado impede mais que o que permite e as cidades não têm a dimensão mínima crítica para serem competitivas a nível mundial.
Para países como o nosso, em que a sociedade civil está metida num colete-de-forças, o resultado da globalização pode ser desastroso porque o investimento procurará os Estados, mais magros e mais inteligentes, que não dificultem a iniciativa empresarial e não se apropriem de fatias inaceitáveis do rendimento produzido. Se os portos, os aeroportos, a burocracia, a justiça, os caminhos-de-ferro, as telecomunicações, as estradas, os bancos, a legislação laboral a justiça, etc. não forem eficientes o investimento procurará outras paragens. Portugal não está, por isso, bem colocado para ser um país vencedor da globalização. Mas vai ter que se adaptar rapidamente. E essa adaptação cria oportunidades vastas para as empresas.
Neste contexto, as cidades passam a ter uma importância crucial. De facto, as cidades passam a relacionar-se umas com as outras, a nível mundial. A liberdade de investir onde se quer e a procura de espaços onde o investimento possa ser fortemente competitivo provoca um movimento centrípeto das grandes cidades sobre as cidades próximas de menor dimensão, que , ou são absorvidas, criando-se grandes espaços onde se exercem as funções de uma só cidade ou são esvaziadas por aquele efeito centrípeto. É de prever que as “Cidades Mundiais”, capazes de captar os grandes investimentos, apresentem diâmetros nunca inferiores a 100 km. De facto, as ”Cidades Mundiais” têm que possuir infra-estruturas adequadas à sua escala global, tais como zonas industriais e edifícios preparados para acolher serviços que precisam de redes de comunicação rápidas e seguras, aeroportos que possam receber voos transcontinentais, instalações portuárias que permitam receber grandes navios porta-contentores, redes ferroviárias de grande velocidade e redes de auto-estradas bem conectadas. As “Cidades Mundiais” serão redes de aglomerações urbanas onde se concentrarão as funções que orientam os fluxos de investimento e de recursos qualificados e onde se organizarão as informações relevantes sobre as oportunidades de investimento, sobre mercados e sobre as praticas mais eficientes de gestão e organização de recursos. As grandes oportunidades que resultam deste processo de concentração nas “Cidades Mundiais” (em Portugal, só a Grande Lisboa se aproxima destas características) vão encontrar-se, fundamentalmente, na função financeira, na função de coordenação de gestão de empresas nacionais, nos serviços globais de educação, de formação e de oferta de serviços de alta tecnologia, na capacidade de transporte à escala global, na capacidade de produção cultural e na organização de grandes eventos com relevância mundial, nos centros de informação e na função de articulação político-ideologica,.
Numa palavra: os países concorrerão entre si mas será nas cidades que se jogarão os factores de aglomeração que atrairão ou repelirão o desenvolvimento. Os executivos das câmaras municipais precisam de se consciencializar da função decisiva que têm que desempenhar e da velocidade a que a resposta tem que ser dada. Urge, em Portugal, que os autarcas das maiores cidades comecem a trabalhar conjunta e empenhadamente para se tornarem “Cidades Mundiais”.
Nota - Para aprofundamento, relativo às cidades, ver: SAER, ”Relatório sobre os fundamentos da decisão estratégica em Portugal”, 2004, pgs. 1 a 15.
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António Neto da Silva
Diário Económico
2006-05-05
Notícias
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